Aradia Rhianon

Tu te tornas responsável por aquilo que cativas.

Textos

A moça do fim da rua
A MOÇA DO FIM DA RUA

Guardei-a na lembrança,
E de lá a retiro
Quando em frente ao espelho
Da vida me espio,me miro.

Ela era toda colorida, divina
Seu andar o mais elegante
Que me lembro ter visto
Era preciso em seu ritmo

Parecia dançar num compasso
Invisível na melodia dos anjos
Que a seguiam pelos caminhos
Incertos que a vida a levava

Sorriso aberto acolhedor
Recebia a todos com seu amor
Gostava de ficar doente
Para ir visitá-la

E ouvir suas santas palavras
Enquanto o rosário desfiava
Chamando as santas que confiava
Enquanto meus males expulsava

Ela mora lá o fim da rua
Numa casinha singela
Cheia de filhas e netos
Todos obedientes a mulher divina

Vez ou outra eu a via
Descer a rua com tanta elegância
Enquanto carregava uma lata
Enorme cheia de restos de comida

Que seria o alimento de suas crias
Ela fazia seu trajeto em suntuosidade
Que mais parecia carregar uma coroa
Preciosa cheia de diamantes

Por anos a fio me lembro da última vez
Que a vida a moça divina do fim da rua
Eu estava delirando com febre
E fui levada até a porta de seu casebre

Parece que ela também padecia
De um estranho mal que eu não conhecia
Mesmo assim com suas santas mãos
Rezou o rosário e enquanto me benzia

Calafrios ela sentia.
Minhas coleguinhas zombavam de fim
Dizendo: - Coitada, pobre da divina!
Eu não sabia de nada

Depois de muito tempo
Me contaram que após me benzer
Ela entrou e veio a falecer
As meninas que comigo vinham a ter

Debochavam e diziam
Que eu tinha mesmo uma carga pesada.
Minha tia calava a garotada
Afinal a Dona Dilina tinha sido chamada

Para junto com as andorinhas
No céu voar, voar, voar e bater asas.
Ela era por todos muito amada
Adorada, querida, respeitada

Virou lenda na rua que eu morava
Diziam ser filha de uma escrava
Poderia até ser verdade
Pois os anos ela não contava

Durante toda sua vida se apresentava
De forma simples mais linda
Era alta, magra, negra
Cabelos crespos e escuros

Sua roupa sempre muito colorida
E impecavelmente bem cuidada
Nada em sua natureza
Revelava a origem onde fora criada

Se no céu estiveres, Dona Dilina
Receba meu gesto de carinho
Quando partistes me senti desamparada
Sem o consolo de tua reza divina

A moça do fim da rua
Afastava a molecada barulhenta
Com seu pisar macio e descalça
Equilibrando a grande lata

Muitas vezes suas netas e sobrinhas
A ajudavam na tarefa
Que costumava fazer sempre sozinha
Apanhar sobras de frutas e verduras

Para encher o papo das galinhas,
Marrecos, e porcos que lá viviam.
Esta mulher pedaço da forma divina
Inesquecível Dona Dilina.

Aradia Rhianon

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Publicado em 05/01/2010 às 16h06


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